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Uma introdução aos Sonhos de Jung

Existe uma certa sincronicidade em nossa vida diária que é tão sutil, que passa despercebida por nós, semana passada eu estava pensando sobre o que eu deveria escrever, quando em uma roda de amigos alguém contava um sonho e falava que havia pesquisa na internet para entender seu significado.
No dia seguinte minha mãe falava que um amigo havia sonhado que estava sangrando pelo nariz, segundo ela, seu terapeuta, o Dr. Google, havia explicado que isso significa uma relação ruim com um filho(a).
Então entendendo o que o meu inconsciente (e mesmo que seja o coletivo) estava querendo me mostrar, vou me arriscar um pouco e falar sobre sonhos, e assim, tentar conhecer um pouco o trabalho de analise dos sonhos segundo Jung.
Vamos para uma boa definição de “sonho”, isso não quer dizer que seja a definitiva, até porque eu não li toda a obra completa para poder afirmar que seja a definitiva, extraído do vol. 8/2 “A Natureza da psique” :

“O sonho é uma parcela da atividade psíquica involuntária, que possui, precisamente,
suficiente consciência para ser reproduzida no estado de vigília. Entre as manifestações psíquicas são talvez os sonhos aquelas que mais nos oferecem dados “irracionais”. Parecem comportar um mínimo de coerência lógica e daquela hierarquia de valores que caracterizam os outros conteúdos da consciência e, por isto, são menos fáceis de penetrar e de compreender. Sonhos cuja estrutura satisfaz ao mesmo tempo à lógica, à moral e à estética constituem exceções. De modo geral, o sonho é um produto estranho e desconcertante, que se caracteriza por um grande número de “más qualidades”, como a falta de lógica, uma moral duvidosa, formas desgraciosas, contra-sensos ou absurdos manifestos. Por isto é que são prontamente rejeitados como estúpidos, absurdos e desprovidos de valor.

Jung deixa claro que a compreensão de um sonho é um trabalho difícil e que ele próprio estabeleceu uma regra, ao ser indagado sobre um sonho, antes de qualquer analise, Jung afirmava para si mesmo:
 “Não tenho a mínima ideia do que este sonho quer significar”

Somente depois depois desta constatação é que sentia pronto para se entregar ao trabalho de analise do sonho.
Freud, foi quem abriu as portas da psicologia para se trabalhar com sonhos, ele reconheceu que não seria possivel se aprofundar nos conteúdos de um sonho, sem a ajuda do sonhador. Imagine que alguém lhe conte o sonho no qual ele se encontra sentado em uma mesa, a palavra mesmo em si já é suficientemente precisa, mas para o sonhador a palavra mesa pode ter vários significados.
Diferente de Freud que creditava aos sonhos a realização de “desejos recalcados”, Jung estabeleceu um procedimento chamado “reconstituição do contexto”, esse procedimento consiste em ver através de associações feitas pelo próprio sonhador detalhes que se destacam via associações que façam mais sentido. Os resultados nem sempre são textos possíveis de se compreender imediatamente, mas entrega uma serie possibilidades, vamos trazer um exemplo no qual Jung analisa um sonho :

“Certa vez tratei um jovem que me contou, na anamnese, que estava noivo, e de maneira muito feliz, de uma jovem de “boa família”. Nos sonhos, a personagem desta jovem assumia muitas vezes um aspecto pouco recomendável. Do exame do contexto deduziu-se que o inconsciente do paciente associava à figura da noiva toda espécie de histórias escandalosas, provenientes de outra fonte, o que lhe parecia absolutamente incompreensível e a mim naturalmente não menos também. A repetição constante destas
combinações me levou, contudo, a concluir que existia no rapaz, apesar de sua resistência consciente, uma tendência inconsciente em fazer sua noiva aparecer sob essa luz equívoca. Ele me disse que, se tal coisa fosse verdadeira, isto representaria para ele um autêntico desastre. Sua neurose se manifestara algum tempo depois da festa do noivado. Embora me parecessem inconcebíveis e sem sentido, as suspeitas a respeito da sua noiva me pareciam constituir um ponto de importância tão capital, que eu lhe aconselhei a fazer algumas investigações a respeito. As pesquisas mostraram que as suspeitas eram fundadas e o “choque” causado pela descoberta desagradável não só não abateu o paciente, mas o curou de sua neurose e também de sua noiva. Embora a reconstituição do contexto apontasse uma “incongruência” inadmissível, e conferisse, assim, aos sonhos uma significação aparentemente absurda, contudo, revelou-se exata à luz dos fatos descobertos posteriormente. Este fato é realmente de uma simplicidade exemplar, e me parece supérfluo sublinhar que pouquíssimos sonhos têm uma solução tão simples.

A reconstituição do contexto, conforme afirma Jung é um trabalho simples e que acontece de maneira automática que tem um valor preparatório, a partir deste momento, a produção de um texto legível é uma tarefa exigente, que uma boa dose de rapport, capacidade de combinação, intuição, conhecimento do mundo e dos homens, ou seja, quanto maior o conhecimento do medico melhor será sua capacidade de produzir um texto legível.

Qualquer interpretação utilizando ideias e modelos preconcebidos, se torna invalida, pois passa ter uma influencia externa ou estereotipada.
Muitas vezes não conseguimos perceber qualquer tipo de relação com nossas atitudes conscientes, salvo algumas raras ocasiões, o que demonstra um nível de autonomia do inconsciente, desta forma, Jung entendeu esses comportamentos dos sonhos como compensação, ou seja, uma confrontação em uma comparação entre diferentes dados ou diferentes pontos de vistas e que o resultado é um equilíbrio ou retificação podendo ter três variações:

  • Se a atitude é extremamente unilateral em determinada situação, o sonho adota uma posição oposta.
  • Se a atitude é mais ou menos equilibrada, o sonho se contenta em exprimir variantes.
  • Se a atitude é adequada, o sonho coincide com a atitude.

Apesar dos sonhos atuarem de forma a compensar nossas atitudes, ainda sim é preciso ter o máximo de atenção a tais mensagens que podem ter a tendência a atitudes e comportamentos anormais ou neuroses, e nossa tarefa é estabelecer a harmonia entre o consciente e o inconsciente.
Jung diz:

“Esses sonhos nos trazem recordações, reflexões; relembram  acontecimentos vividos outrora; despertam coisas que dormiam no seio da nossa personalidade, e revelam traços inconscientes nas suas relações com o meio ambiente. Por isto é raro que um indivíduo que tenhas e submetido ao fatigoso trabalho de análise de seus sonhos com a competente assistência de um especialista, por um longo período de tempo, não veja seu horizonte se alargar e se enriquecer. Justamente por causa de seu comportamento compensador, a análise adequadamente conduzida nos descortina novos
pontos de vista e nos abre novos caminhos que nos ajudam a sair da terrível estagnação.

Desta forma, não basta que o medico se contente apenas com um sonho, mas sim com uma serie de sonhos que podem conter uma mensagem subliminar que permanece escondida atrás da atitude compensadora de cada sonho, é uma espécie de processo evolutivo, conforme chamado por Jung, o processo de individuação.

fonte – A natureza psique 8/2 – Obra Completa

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